Género e Sexualidade

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Considerações gerais sobre o “sexo”
Começaremos por abordar a questão do sexo, este é construído por características biologicamente determinadas, onde tentámos perceber se o indivíduo é do sexo feminino ou masculino.
Sendo que a atribuição do sexo a um indivíduo assenta em dimensões como nos genes ou cromossomas, nas hormonas, nos órgãos que produzem células sexuais, nos órgãos reprodutivos internos e nos órgãos genitais externos. Assim podemos afirmar que o sexo é algo que está presente no corpo.
O corpo é a base sobre a qual construímos e modelamos uma identidade, no entanto não podemos ser aquilo que desejamos mas modelamo-nos em função de convenções sociais e culturais.

Considerações gerais sobre o “género”
O género de um indivíduo é construído a partir de características físicas, de condutas, de auto-imagens que servem para determinar o que é a masculinidade e a feminilidade, concluindo-se que é algo socialmente e culturalmente construído.
Na nossa sociedade temos sempre a ideia de que um homem não se iria comportar como um mulher e uma mulher não se iria comportar como um homem, porém existem relações de género que definem a expressão sexual adequada, são normas relativas ao exercício da sexualidade que definem a sua mecânica bem como o género da fantasia erótica de cada um, existe também um complexo de objectos simbólicos.
Na questão do género existe uma desigualdade sendo que um género exerce mais poder que outro “a mulher é um ser inferior”.
Relação entre “sexo” e “género”

Esta relação começa a desenvolver-se através da socialização primária e torna-se complexa ao longo do crescimento e do desenvolvimento. Nas nossas sociedades o sexo é um determinador do género, sendo que o género divide-se em duas categorias (homens e mulheres) formando assim um sistema bipolar de género (é cultural e está relacionado com as características de cada sexo).
O que se espera é que os indivíduos sejam heterossexuais pois assim torna-se uma pessoa “normal” e “natural”.
Porem o sistema de classificação de género não é igual em todas as culturas, sendo que a mulher era um ser não racional aos olhos do cristianismo. Para a igreja (que ainda exerce muita influencia sobre a mente dos indivíduos) a maioria das mulheres são comparadas a Eva assumindo um papel mais próximo do Satanás, pelos seus pecados e porque não era capaz de se controlar nos seus desejos (na sexualidade), por oposição nesta perspectiva o ideal de mulher seria o mais próximo de Maria pois era obediente, virgem e privilegiava o casamento (Ribeiro, 2000).
Após uma breve leitura ao artigo de Paula Machado “O sexo dos Anjos” (2000), foi-nos transmitido a ideia de que existe, na sociedade ocidental, uma preocupação sobre as figuras de androginia.
A autora reporta-se a autores como Foucault que nos seus estudos sobre o que era considerado “anormal” e “monstruoso” no século XIX e concluiu que esses indivíduos eram privilegiados na Idade Clássica.
Porem na nossa sociedade contemporânea essa odeia mudou. Nestes casos os médicos são aqueles que assumem uma grande responsabilidade, pois quando crianças nascem com um sexo indeterminado (nem masculino, nem feminino), “estados intersexuais” (Kessler, 1996).
Os médicos dividem este estado em quatro categorias: “pseudo- hermafroditismo feminino”; “pseudo- hermafroditismo masculino”; “ disgenesia gonadal mista” e “hermafroditismo verdadeiro” (Machado, 2005:252), uma das razões por que isto acontece é graças à hiperplasia de suprarenal.
Quando as crianças são sujeitas a intervenções os médicos têm como finalidade corrigir o erro para tornar o indivíduo um ser normal, sendo que a identidade do indivíduo vai ser construída através das técnicas (cirurgia reparadora dos genitais).
Podemos assim reforçar a ideia de que o sistema bipolar de género é o mais aceite pela sociedade, pois quando ocorrem estes casos os “intersex”, estes não os aceitam como algo normal, nem natural querendo corrigi-los muitas vezes sem questionar o próprio indivíduo, ou porque este é ainda uma criança, logo não têm poder para escolher e por outro lado as discriminações feitas pela sociedade exercem um grande poder sobre esses “seres”, logo estes vão querer ser “iguais” ao resto da maioria da sociedade.
O sexo e o género assim são construídos culturalmente e não adquiridos à nascença “ A linha argumentativa condutora toma como pressuposto que o sexo é tão construído na cultura quanto o género e que as fronteiras entre “natural” e o “não natural” são facilmente borradas quando se trata de defini-las a partir do que é considerado dentro ou fora das normas sociais” (Machado, 2005:253).
Podemos ainda fazer umas conclusões nomeadamente que o sexo é definido pelo género, que a classificação dos genitais é feita a partir do que se vê e quando existe uma construção, ela é vista como algo normal, para os médicos a intervenção surge só porque a ideia do normal, e aquilo que é considerado ser o ideal de corpo (dentro das normas sociais).
E uma vez demonstrado que os médicos criam técnicas em vez de cultura (na forma de não aceitação desses indivíduos), temos de ter em conta o lado das pessoas que são “corrigidas”, porque como temos a certeza de que o médico na sua análise faz um prognóstico correcto? E no caso de os indivíduos desenvolverem características mais próximas do género oposto, do que na realidade têm?
Sabe-se que as transformações são feitas sempre no que a sociedade pensa em ser o correcto. Uma das consequências é o suicídio, pela ausência de integração e pelo constante confronto com a própria identidade.
Machado fez uma pesquisa e relata a história de um bebé que foi sujeito a uma intervenção, devido a erros médicos que lhe queimaram parcialmente o pénis.
 E neste caso o bebé de sexo masculino, teve como solução, ser “transformado” num indivíduo de sexo feminino. Neste caso tudo parecia correr bem, e aquele bebé à medida que crescia parecia ter desenvolvido uma identidade feminina, mas na realidade acabou por se suicidar de adulto, por ter entrado em conflito com ele mesmo. Ele nasceu homem, a mudança foi imposta sem ele desenvolver as suas características, logo este indivíduo sentiu-se inseguro, e devido à falta de informação e por ser rejeitado pela sociedade, o suicídio foi a solução.
Mas em culturas diferentes da Ocidental olham a anatomia das pessoas (intersexuais) de maneira diferente. Como no caso da República Dominicana, aqui o sistema bipolar não faz sentido, uma vez que para eles não existem dois sexos (feminino e masculino) mas sim três sexos. Sendo que a 3º categoria é chamada de “guevedoche” que significa “pénis aos doze” (Machado, 2005:260), onde estes indivíduos não são considerados nem homens nem mulheres, eles assumem um outro estatuto social e biológico.
O 3º sexo é uma construção histórico-cultural. Mais uma vez verificámos que a intersexualidade é um processo “enraizado” na maneira de pensar da maioria das culturas.

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